dr. álvaro silveira neto

Meu relato de parto

por Jessica Oliveira Blaszcyk em

Hoje eu vim aqui contar um pouco sobre um dos dias mais importantes da minha vida: o dia em que meu filho Leonardo nasceu. A minha ideia não é dizer que a minha forma de trazê-lo ao mundo é a única correta, e sei o quanto um parto humanizado está muitas vezes (infelizmente) longe do alcance da maioria das pessoas. Meu único objetivo com esse post é incentivar quem está em busca de um parto respeitoso, especialmente aqui em Curitiba. É dizer que se você buscar informações, você pode conseguir parir da forma mais natural possível. E principalmente contar o lado bom do parto, que não é algo horrível que sempre nos fizeram acreditar que seria. Espero que vocês gostem, e que o Léo sinta o amor com que ele foi recebido, no dia que ler isso.

Sou muito grata por todos os caminhos que me levaram até o dia 24 de novembro de 2016, dia que pude trazer o meu filho ao mundo da maneira mais amorosa, respeitosa e natural possível. Sem as pessoas que conheci nesse período, sem o conhecimento e informação que tive acesso, a nossa história não teria sido a mesma.

Tudo começou em 2015 quando ouvi falar pela primeira vez sobre o tal “parto humanizado”. Até então eu nunca havia pensado muito sobre esse tema, achava um assunto até desagradável, parecia ser um momento de sofrimento que em algum momento todas as mulheres que queriam ser mães teriam que “pagar esse preço”. Além disso, sempre me achei pouco resistente a dor, do tipo que chora até para tirar a sobrancelha, e nunca nem cogitava um parto normal.

Porém, algumas questões pessoais me fizeram buscar mais sobre o tema, até que eu soube que quando fosse minha vez eu PRECISAVA viver essa experiência por completo. Comecei a entender que o ponto não era um nascimento normal versus cesárea, e sim uma experiência que me respeitasse, que respeitasse o tempo e a fisiologia do bebê.

Em março desse ano recebi então a feliz notícia de que o nosso bebê estava a caminho, e a ideia de viver essa aventura passou a ser ainda mais real. Comecei a desconstruir todas as ideias que haviam sido colocadas na minha cabeça há tantos anos, principalmente que parto é sobre dor e sofrimento. A minha dificuldade inicial foi encontrar um médico que trabalhasse nessa linha, e que me deixasse tranquila ao me acompanhar, e só iria intervir apenas se fosse extremamente necessário. Não encontrei só um médico, mas também encontrei um grupo de mulheres que se apoiavam e respeitavam em busca da humanização, e uma doula que me preparou para tudo que eu iria passar.

Após meses de desconstruções e aprendizados, eu estava muito confiante quando as 22h e tantas daquela quarta-feira senti um líquido escorrendo pela minha perna. Eu sabia que aquilo podia indicar que o meu trabalho de parto estava para começar, mas também podia levar algumas (ou muitas) horas para acontecer.
Liguei para minha querida doula Paty, e contei como estava: sem nenhuma contração e possivelmente com a bolsa rompida. Ainda num misto de descrença (achando que podia não ser tão logo o nascimento, afinal eu estava com 38 semanas e 5 dias) e alegria, começou a cair a ficha que talvez fosse conhecer meu Leózinho em algumas horas.

Passei a esperar as contrações começarem, tive inclusive tempo de ligar para meu irmão, conversar sobre outros assuntos, arrumar os últimos detalhes do quartinho, colocar o bebê conforto no carro e dar a última checada nas malas da maternidade. Tentei cochilar para estar mais disposta caso o trabalho de parto começasse de madrugada e não consegui. Comecei a trocar mensagens com uma amiga que havia passado pela mesma experiência poucos meses antes, e ela me deu algumas dicas. Lá pela meia noite e tanto começaram as minhas contrações, lembravam cólicas menstruais e eram bem suportáveis. Eu não estava cronometrando os intervalos delas, pois não queria ficar ansiosa demais. Algum tempo depois me veio a ideia de ir para o chuveiro, pois sabia que assim ficaria mais fácil saber se existia um ritmo entre os intervalos ou não.

Entrei no chuveiro e “as ondas” vinham de 20 em 20 minutos. Estava muito feliz por estar sentindo tudo aquilo, pois quando a bolsa estourou sem contrações tive muito medo de sofrer uma indução. Fiquei ali por 40 minutos, imaginando tudo que eu ainda iria viver naquela noite. Quando desliguei o chuveiro o intervalo diminuiu bruscamente e passou a ser de 8 em 8 minutos. Liguei para a Paty e ela me deu a ideia de ir até a maternidade, ver se eu tinha tido alguma dilatação, ou disse que poderia vir para minha casa. Escolhi a segunda opção, pois havia decidido ficar o maior tempo possível do trabalho de parto no lugar que eu me sentia mais acolhida e confortável, e esse lugar era minha casa. Logo que ela chegou (por volta de 2:40am) combinamos que eu só iria pro hospital quando tivesse três contrações em 10 minutos, ela começou a cronometrar e em 8 minutos eu já havia tido as três contrações. Começamos a nos arrumar para ir ao hospital e nessa hora embarquei na “partolândia”.

Perdi a noção do tempo, só me concentrava no meu corpo e em tudo que eu havia aprendido nessa jornada. Uma amiga disse um dia antes do parto que nosso corpo não produziria uma dor maior do que a gente podia aguentar, e eu me agarrava nisso. A cada nova contração eu pensava: agora já sei como é, e do mesmo jeito que ela vem ela vai embora.

Meu médico chegou ao hospital algum tempo depois, verificou minha dilatação, em seguida fui internada. Chegando à sala de parto o chuveiro já estava ligado me esperando. Dessa vez não sei dizer exatamente quanto tempo fiquei lá embaixo da água, vivendo cada segundo dessa montanha russa de sentimentos e sensações. Quando a onda vinha mais forte, eu tentava imaginar o rostinho do meu filho, conversava com Deus e pedia para Ele estar com a gente aquela hora, e em meus pensamentos conversava com meu filho e dizia que ele sabia o que deveria fazer, que estávamos trabalhando juntos e que eu acreditava que éramos capazes.

Em algum momento senti muita vontade de fazer força, nessa hora já estava muito cansada, sentindo muito sono e me sentindo sem forças. As contrações não estavam doendo de forma insuportável, mas eu estava com medo de “travar” de tanta força que eu fazia com todo meu corpo. Nessa hora pedi para minha doula chamar o médico, porque eu queria uma analgesia.

O Dr. Álvaro foi verificar como estava minha dilatação, para saber se eu já poderia ter analgesia e foi aí que recebi uma notícia que eu não imaginava: já estava com 9cm de dilatação. Ou seja, estava muito perto do meu bebê chegar e não daria nem mais tempo da analgesia. Nesse momento minhas forças e minha energia se renovaram. Pensei “já chegamos até aqui agora vamos até o fim”. Nas últimas contrações me apoiei no meu marido (que me acompanhou durante todo o parto), ele me segurava dando todo o apoio que eu precisava para trazer nosso filho.
Em algum momento senti uma “pressão”. Eu ainda estava em pé na sala de parto quando falei: acho que senti a cabeça dele.

Nessa hora não sei de onde consegui forças para subir na maca, e ficar na mesma posição que estava no chão em cima dela. Respirei fundo e fiz muita força. Minha doula me olhou nos olhos e me lembrou que para ele sair essa força deveria ser contínua e comprida. Tentei novamente. Depois de mais duas tentativas escutei o chorinho dele, meu médico chamou meu marido para amparar o nosso Léo saindo de mim. Ele chegou ao mundo às 06:12am, e após o cordão umbilical parar de pulsar, o meu marido (e agora pai do Léo), cortou aquele elo que nos ligou e o nutriu por quase nove meses. Ele foi imediatamente para o meu colo, e já tentei amamentá-lo. Com ele ali tão pequeninho em meus braços, com aquele cheirinho que eu nunca mais vou esquecer, eu soube que valeu a pena cada segundo, e só por ele eu teria forças para fazer tudo que fiz.

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Agradeço ao meu marido Gustavo que sempre me apoiou, me incentivou, confiou em mim, se empoderou junto comigo, e não mediu esforços para eu viver esse momento da forma que sonhei. Ao incrível Dr. Álvaro, que com toda a sua paciência e acolhimento me deixou protagonizar o momento mais importante da minha vida. A minha doula Patrícia Teixeira, que me passou confiança e amor desde a nossa primeira conversa – suas massagens a cada contração me deram conforto e forças. Ao lindo grupo Humanização do nascimento – Curitiba, onde encontrei uma rede de apoio de mulheres que passaram ou iriam passar por esse momento tão transformador, e estavam sempre ali para troca de conhecimento, incentivo e informações.

Essa experiência foi transformadora, e eu com certeza não sou mais a mesma mulher depois dela.